Home Data de criação : 08/02/18 Última atualização : 08/12/31 00:10 / 60 Artigos publicados
 

«Leituras Soltas»...: Cerimónia de Apresentação (I)  escrito em domingo 14 dezembro 2008 00:13

Uma Edição conjunta da FNAC e da Editora "O Liberal"

Funchal, 13/12/08

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Novas Edições: «Leituras Soltas»...  escrito em domingo 14 dezembro 2008 00:10

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Contemplação...  escrito em domingo 07 dezembro 2008 16:37

João perde-se na contemplação minuciosa de reproduções do seu pintor de eleição: Max Romer. Saídos da sua magnífica paleta de cores, os vinhedos ressurgem do passado e, com eles, o difícil trabalho nas vindimas e nos lagares, os passos cadenciados dos borracheiros e o transporte das pipas até aos barcos, uma vez que era através do mar que o vinho trocava a Ilha pelo Mundo. Já em meados do século XV, com o aproveitamento económico da Madeira, as cepas são introduzidas e as latadas crescem nos lugares onde outrora era denso e natural o arvoredo. Mostrando essas imagens ao neto, pensa proporcionar-lhe pedaços vivos de História, promovendo nele a curiosidade e o respeito pela Ilha que também lhe pertence. Por isso, sem o maçar, deixa-lhe a consciência da importância económica deste produto que é desde cedo exportado, atingindo em finais do século XVIII e princípios do XIX um extraordinário volume de vendas.

- Vinte mil pipas?! Já nessa altura… impressionante!

João sorri para o mar, com olhos de orgulho pelo neto. Sente que o corpo do miúdo esconde uma Ilha de interessada inteligência mas envolta em brumas, misteriosas, de sensibilidade. Procura dar-lhe o leme que o conduza ao lado bom da vida mas receia que ele possa não vir a estar preparado para quotidianos mais cinzentos nem para as inundações que fazem parte da existência. Observa-o com descrição, prepara-o com carinho e, ao acreditar no Amor, não tem dúvidas assustadoras quanto ao seu futuro. Por isso, afasta-se rapidamente da aranha voraz que põe teias de desconfiança na Paz de um homem:

- Tontices da velhice, oh se são!

Como sempre, Vina adivinha os anseios e as expectativas da família. É uma mulher realizada que, sem abdicar dos seus intereses pessoais, sabe inundar de calor os que ama e a rodeiam. Resolve quebrar, então, aquele excesso de pacatez reflexiva.

- Daniel, vem ajudar a avó!

O miúdo entra na cozinha, pois é de lá que lhe chega o apelo. Em plena azáfama, encontra Vina concentrada a separar ingredientes e a efectuar medições de produtos:

- Traz-me, por favor, um pacote de açúcar da dispensa. O que aqui tenho não vai chegar! Não demores, tenho o almoço atrasado!

- Queres ajuda?!

- Não João, o teu neto ajuda-me. Só lhe faz bem!

Na verdade, ambos dividiam as tarefas domésticas, mas a cozinha era o seu espaço e gostava de elaborar as receitas sem interferências.

Daniel regressa com olhos de mel e o pacote de açúcar. A avó faz as medições julgadas necessárias e junta a tigela mais doce às outras, dispondo-as em fila: o meio quilograma de farinha, o quarto de quilo de açúcar, os três ovos (já divididos: gemas num lado, claras no outro), a meia chávena de leite, a quarta parte de uma chávena contendo cacau, um quarto de quilo de manteiga, uma colher de sopa de canela, a mesma medida de soda, um limão em sumo…

- Daniel, tem paciência! Traz-me uma das garrafas de vinho da Madeira do teu avô! Sem uma colher de sopa do precioso líquido, o bolo não terá o mesmo sabor!

- A avó fala mesmo bem! Até trata o vinho por precioso

- É um tesouro! Pergunta ao teu avô se o vinho da Madeira não era servido aos reis mais requintados!

- Dê-me um exemplo.

- Ah! Estás a duvidar de mim. Olha… Napoleão, já que me pedes um exemplo, deliciava-se com o nosso vinho e, um dos maiores dramaturgos de sempre, Shakespeare, refere-se ao Madeira, no seu Henrique IV. E não só…

Vina trabalha com destreza, para espanto do neto, enquanto profere estas explicações. Num dos recipientes maiores, já tinha amassado o cacau, juntamente com as gemas, a canela, o líquido precioso, a farinha, o açúcar, a soda, o limão e a manteiga derretida. Prepara-se agora para realizar a mesma operação, com praticamente a outra metade dos ingredientes, colocando-os na outra tigela de maiores dimensões mas sem perder a sequência da conversa.

- Sabes que na altura em que decorriam as histórias que o teu avô te conta, existia a pena de morte, não sabes?

- Tempos bárbaros! Diz o avô que nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida a outro!

- É claro que o avô tem razão. – conclui Vina, enquanto amassa ainda com mais vigor, a outra metade da farinha, do açúcar, do restante sumo de limão, da soda e do leite, agora só com as claras. E continua:

- Mas alguns senhores – devido ao seu estatuto social – e caso não se livrassem da morte, podiam escolher a forma de execução que lhes seria aplicada. Ora, o duque inglês de Clarence preferiu morrer afogado num tonel de vinho de Malvasia, a casta que deu o nome ao vinho da Madeira.

- No entanto, não era considerada a de maior qualidade – diz-lhe o neto num tom de voz muito importante – já que em primeiro lugar vem, desde sempre, referido o Sercial, depois então, é considerado o de Malvasia, e no campeonato das melhores castas, o Boal e o Bastardo ocupam a terceira posição, logo seguidos pelo Tinta Negra Mole que é a casta quarta classificada! Mas ainda há o Verdelho, o Terrantez, o Isabelle

- Engraçadinho! Graças ao teu avô, pensas que sabes tudo! Já agora, fixa também que, durante a declaração de independência dos Estados Unidos da América. Em 4 de Julho de 1776, o brinde foi efectuado com vinho da Madeira!

- Ah! Que curioso, avó! As duas masas do bolo ficaram com cores diferentes!

- Com certeza. Não reparaste que os ingredientes não são bem os mesmos? – responde Vina, enquanto coloca, à vez, uma colherada de cada cor dentro da forma – Este é o bolo de mármore e o seu conteúdo tem duas cores…

- E leva também o precioso vinho…

- E vai também contar com uma preciosa ajuda! Ora segura lá neste recipiente e nesta colher. Vamos acabar de encher a forms: primeiro eu, depois tu!

Daniel disfarça o mel do olhar e o seu rosto contrai-se numa careta.

- Pronto, está bem! Primeiro tu, depois eu… mas só desta vez!

 

ANTÓNIO CASTRO

IN: «MAIOR DO QUE A LENDA»

EDIÇÃO: FUNCHAL 500 ANOS

 

* DIREITOS RESERVADOS

 

 

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Fernando Pessoa e o Mar...  escrito em terça 02 dezembro 2008 03:08

«Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.»

Fernando Pessoa

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Daniel desvenda curiosidades e mistérios...  escrito em sábado 22 novembro 2008 02:08

(O I.º Capítulo de Maior Do Que A Lenda, a obra mais recente do Autor)

 

   Daniel enrolou cuidadosamente o cordel e, saciado da brincadeira, pôs em repouso a joeira. Perdera-se no tempo a fazer de pássaro e, se o céu se enchera de asas gigantescamente coloridas, em parapente, o seu papagaio de papel não o envergonhara no voo, sempre amestrado pela perícia do cordel.

   Colou as duas mãos sobre as faces e, debruçado sobre o varandim do amplo terraço, construído quase a roçar as nuvens pelo betão armado dos homens mas sobre o mar dos deuses, pôs-se a beber aquela pacatez azul, salpicada pelas velas muito brancas dos navios. Ao longe, as Desertas, cofre de mágicos mistérios que ele tanto queria desvendar. Bem mais distantes – invisíveis – as Selvagens, sempre presentes através das histórias, aventuras e lendas que o avô lhe contava, como ninguém!

   - Pedes à avó o meu cálice de vinho da Madeira?

   Assim atracou Daniel no porto de abrigo doméstico e, a sorrir, lá foi saber da avó. Esta, porém, já lhes bordara os hábitos no linho do coração, aparecendo de imediato com uma bandeja que contemplava os dois: um cálice de Boal e um pedaço generoso de bolo de mel para João; um copo de leite morno e uma tosta mista para o neto.

   Daniel, logo que pôde, voltou ao mar e aos barquinhos; o avô, regressou à leitura.

   Assim se repetiam, plenas de felicidade tranquila, aquelas tardes soalheiras, no Funchal. Todos os troféus de ventura se conquistavam, em paz e em ternura. Mais tarde, viriam as histórias, pela voz aveludada do avô que, inteligentemente moderado, reservava o segundo cálice de vinho da Madeira para as suas narrativas, contendo episódios misteriosos de navios e façanhas inacreditáveis de piratas.

(...)

. . .

ANTÓNIO CASTRO

«Maior Do Que A Lenda»

Edição: Funchal 500 Anos

(Direitos Reservados)

 

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